Fala sobre igrejas volta ao debate enquanto PT tenta ampliar diálogo com cristãos nas eleições
Uma declaração feita em 2022 pela professora Ermínia Maricato, durante um evento na Universidade de São Paulo (USP) com a presença de Luiz Inácio Lula da Silva, voltou a circular nas redes sociais em meio à aproximação do PT com o eleitorado cristão nas eleições de 2026.
Na ocasião, Maricato, professora emérita da USP e integrante da trajetória histórica do PT, fazia críticas à ausência do poder público nas periferias. Ao descrever esses territórios, afirmou que havia regiões “dominadas por igrejas que fazem parte de uma verdadeira máfia”, colocando a expressão no mesmo contexto em que mencionava crime organizado e milícias. A declaração ocorreu em 15 de agosto de 2022, antes de Lula discursar no evento.
A fala voltou ao debate justamente em um momento em que o PT busca estreitar sua relação com comunidades religiosas. Em junho de 2026, o partido realizou o IV Encontro Nacional de Evangélicos e Evangélicas do PT, com participação de lideranças religiosas e discussão sobre fé, democracia e as eleições.
Em agosto, o partido também anunciou a criação de Comitês Populares de Luta voltados a segmentos religiosos, reunindo evangélicos, católicos, espíritas e representantes de religiões de matriz africana em torno da campanha pela reeleição de Lula.
No caso dos católicos, uma carta divulgada em junho por integrantes do PT utilizou um versículo bíblico como abertura e declarou apoio à reeleição de Lula. O documento também defendeu o diálogo com comunidades religiosas e afirmou que o voto deveria considerar a trajetória e os compromissos das candidaturas.
A mudança de abordagem contrasta, pelo menos no discurso público, com a repercussão provocada pela declaração de Maricato em 2022. Na época, a fala foi criticada por representantes políticos ligados ao segmento evangélico, que questionaram a associação feita entre igrejas e máfia e destacaram o trabalho social realizado por comunidades religiosas.
A declaração, contudo, precisa ser lida dentro do contexto apresentado pela própria professora. Maricato discutia a ausência do Estado em determinadas regiões urbanas e citava, na mesma sequência, violência, crime organizado, milícias e igrejas. O registro não mostra a professora utilizando o termo “evangélicas” especificamente.
Ainda assim, a fala ganhou dimensão política porque ocorreu em um evento com Lula e Fernando Haddad e passou a ser utilizada no debate eleitoral sobre a relação do PT com os cristãos. Naquele período, análises publicadas sobre a repercussão apontaram que a declaração poderia dificultar a tentativa de aproximação da campanha petista com eleitores evangélicos.
Quatro anos depois, o PT apresenta uma estratégia diferente e declara publicamente que pretende dialogar com diferentes segmentos religiosos. Em junho, o presidente nacional da legenda, Edinho Silva, afirmou durante o encontro de evangélicos do partido que a sigla não pretendia utilizar a fé como instrumento de disputa eleitoral.
O episódio de 2022, porém, continua sendo utilizado no debate político como exemplo da tensão existente entre setores da esquerda e parte das comunidades cristãs. Para os críticos do PT, a tentativa atual de aproximação com igrejas precisa ser confrontada com declarações e posicionamentos anteriores de integrantes do campo político. Já o partido afirma que sua atuação junto aos religiosos busca diálogo, liberdade religiosa e participação política.
O contraste entre os discursos de diferentes momentos coloca novamente em discussão a relação entre o PT, as igrejas e o eleitorado cristão durante a disputa eleitoral de 2026.

