Áudio citado em investigação liga assassinato a integrantes da cúpula política do Maranhão
Uma gravação de 37 minutos que menciona um assassinato ocorrido em 2022 voltou a ampliar a crise política no Maranhão, em meio ao rompimento entre grupos ligados ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino e ao governador Carlos Brandão (MDB). O áudio, obtido pelo SBT News, teria sido usado pela Polícia Federal no pedido que levou Dino a determinar, no último dia 16, a prisão domiciliar e o afastamento de Raimundo Cutrim, então secretário de Assuntos Legislativos do governo estadual. Após a decisão, Brandão exonerou o auxiliar. O caso tramita sob sigilo.
Cutrim, de 72 anos, é delegado aposentado da Polícia Federal e figura conhecida da política maranhense. Ele já foi deputado estadual e ocupou a Secretaria de Segurança Pública nos governos Roseana Sarney e José Reinaldo Tavares. Na gravação, feita em 14 de junho, ele conversa com o pai do assassino confesso do empresário João Bosco Pereira Oliveira Sobrinho, morto a tiros em 19 de agosto de 2022, em São Luís.
No diálogo, Cutrim orienta o interlocutor a convencer o filho e a nora a alterarem versões dadas às autoridades em Brasília, com o objetivo de “desdizer” o que ele chama de delação e adotar uma nova linha de depoimento que afastaria qualquer envolvimento de Daniel Brandão, sobrinho do governador e atual presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA). Em um dos trechos, Cutrim afirma não ver como Daniel poderia estar pessoalmente envolvido no crime.
Ainda segundo a gravação, o ex-secretário menciona que a mulher do assassino teria sido paga por adversários para incriminar o sobrinho do governador e também cita políticos ligados ao grupo de Flávio Dino, entre eles o vice-governador e pré-candidato ao governo, Felipe Camarão (PT). Não há, no áudio, apresentação de elementos que comprovem essas acusações.
O homicídio voltou ao centro do debate político maranhense porque imagens de câmeras de segurança mostraram o autor confesso, Gilbson César Soares Cutrim Júnior, conversando com a vítima, com um vereador de São Luís e com Daniel Brandão, que à época era secretário-chefe da Assessoria Especial do governo do tio. A investigação inicial apontou possível relação do crime com desentendimentos sobre comissão ligada ao destravamento de um pagamento de cerca de R$ 800 mil da Secretaria de Educação do Maranhão. A pasta era comandada por Felipe Camarão até o início de 2022, quando ele nomeou João Bosco para um cargo de confiança.
Gilbson Júnior confessou o homicídio e, em depoimentos e no julgamento pelo júri, sustentou que matou por desavença pessoal, sem citar políticos. Ele foi condenado em dezembro de 2024 a 13 anos de prisão. Em 2025, porém, ele e a mulher, Lorena, passaram a apresentar nova versão, afirmando que teriam sido pagos para sustentar a tese de crime motivado por desentendimento pessoal. Com a nova linha de apuração, o caso foi encaminhado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e, depois, chegou ao STF por meio de habeas corpus apresentado pela defesa, alegando paralisação da investigação no STJ. O processo foi distribuído a Dino por sorteio.
O condenado foi transferido de um presídio no Maranhão para Brasília e obteve progressão para o regime semiaberto. Ele não firmou delação, mas é tratado como colaborador das investigações. Na conversa gravada, Cutrim também sugere um roteiro para o depoimento de Lorena, dizendo que ela deveria afirmar dificuldades financeiras e estado de necessidade ao supostamente ser procurada por terceiros interessados em incriminar o entorno do governador.
A defesa de Raimundo Cutrim afirma que ele não tentou proteger ninguém e que buscava informações sobre supostos pagamentos feitos à mulher de Gilbson por adversários políticos. O advogado Berilo Freitas disse ainda que a intenção era orientar para que fossem prestadas informações verdadeiras.
Sobre a operação, o despacho citado por Dino informa a apreensão de munições e 26 armas na casa de Cutrim, algumas sem registro. A defesa afirmou que ele trabalhou por 44 anos na Polícia Federal, foi secretário de Segurança Pública em duas gestões e é colecionador de armas regularmente cadastrado.
Em nota, a assessoria de Daniel Brandão afirmou que ele jamais praticou ato ilícito e repudiou tentativas de associar seu nome ao caso sem provas. A defesa também divulgou boletim de ocorrência no qual o presidente do TCE-MA afirma sofrer tentativas de extorsão e intimidação por familiares de Gilbson. Já a defesa do condenado disse que não pode se manifestar devido ao sigilo das investigações.
O governador Carlos Brandão afirmou que cumpriu integralmente a decisão de Dino e exonerou Cutrim, acrescentando que não comentará os demais pontos do caso por se tratar de procedimento sigiloso. O gabinete de Flávio Dino informou que o ministro não trata de assuntos políticos desde que deixou a vida pública, em fevereiro de 2024, e sustentou que não houve pedido formal de impedimento nos autos. A assessoria de Felipe Camarão, por sua vez, afirmou que ele nunca realizou pagamentos à família citada e que não possui relação com João Bosco.

