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Sapucaí mistura cultura e política e reacende debate sobre os limites do Carnaval

A primeira noite de desfiles do Grupo Especial na Marquês de Sapucaí mostrou, mais uma vez, que o Carnaval do Rio de Janeiro segue sendo um palco onde arte, memória e política se cruzam sem cerimônia. Entre homenagens culturais e críticas escancaradas a figuras públicas, a avenida reafirmou sua força simbólica — mas também levantou questionamentos sobre até que ponto o espetáculo permanece como expressão popular ou se transforma em instrumento de disputa ideológica.

Logo na abertura, a Acadêmicos de Niterói levou para o desfile um enredo que exaltou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O coro de “Olê, olê, olá, Lula” partiu das arquibancadas e reforçou o tom de celebração em torno do petista, acompanhado de perto por aliados como a primeira-dama Janja, o vice Geraldo Alckmin e o prefeito Eduardo Paes.

Ao mesmo tempo, o ex-presidente Jair Bolsonaro apareceu representado como o personagem “Bozo”, em tom de deboche, inclusive em uma alegoria que sugeria prisão. A crítica política, tradicional no Carnaval, ganhou contornos explícitos, transformando o desfile em uma narrativa onde adversários viram caricatura e governantes viram símbolo.

Apesar de o Tribunal Superior Eleitoral ter rejeitado pedidos para barrar a apresentação, o episódio reacendeu o debate sobre os limites entre liberdade artística e propaganda antecipada, especialmente em um evento transmitido nacionalmente e com impacto direto na opinião pública.

Ney Matogrosso: homenagem cultural sem ruídos políticos diretos

Na sequência, a Imperatriz Leopoldinense adotou um caminho mais voltado à cultura e à trajetória artística ao homenagear Ney Matogrosso, aos 84 anos. O desfile destacou sua irreverência, sua estética transgressora e o papel simbólico que teve como figura de resistência durante a ditadura militar.

Mesmo com pequenos problemas técnicos em alegorias, a presença de Ney na avenida foi um dos momentos mais marcantes da noite, reforçando a força do Carnaval como vitrine de artistas que atravessam gerações e disputas políticas.

Portela e Mangueira apostam na ancestralidade como discurso

A Portela levou à avenida um enredo sobre a realeza negra no Rio Grande do Sul, resgatando a história de Custódio Joaquim de Almeida, o Príncipe Custódio, figura ligada ao batuque gaúcho. Já a Mangueira foi apontada como uma das mais impactantes da noite ao homenagear Mestre Sacaca e os saberes tradicionais da Amazônia Negra.

Com referências a rituais indígenas, medicina ancestral e tradições quilombolas, a verde e rosa reforçou um discurso ambiental e identitário que, embora cultural, também dialoga com pautas contemporâneas e políticas.

Carnaval segue como termômetro — e campo de disputa

O saldo da primeira noite deixou claro que a Sapucaí continua sendo um espaço onde o Brasil se observa, se critica e se reinventa. Mas também mostrou que, em tempos de polarização, até o samba pode ser lido como declaração política.

A avenida, que sempre foi território de irreverência e contestação, agora se vê no centro de uma discussão maior: o Carnaval permanece como festa popular plural ou se aproxima cada vez mais de um palco onde narrativas políticas são reforçadas sob aplausos e holofotes?

Entre cultura, memória e provocação, a Sapucaí entregou espetáculo — e também recado. Resta saber quem está ouvindo como arte e quem está ouvindo como campanha.

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