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Professor brasileiro relata intimidação do ICE em bairro latino nos EUA

O professor brasileiro Pedro de Abreu Gomes dos Santos relatou um episódio de intimidação envolvendo agentes do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos) durante uma operação em um bairro de maioria latina em Minnesota. O caso ocorreu um dia após a morte de Renée Nicole Good, americana de 37 anos, baleada por um agente da agência no início de janeiro.

Segundo Pedro, cerca de dez agentes tentavam entrar em residências da região quando ele decidiu questionar a legalidade da ação. Integrante de um grupo comunitário de resposta rápida que monitora operações do ICE e orienta imigrantes sobre seus direitos, o professor perguntou se os agentes possuíam mandado judicial para realizar as abordagens.

A reação, de acordo com ele, foi imediata e hostil. Um dos agentes respondeu exigindo que Pedro apresentasse documentos e provasse ser cidadão americano. Amparado pela legislação local, ele se recusou a mostrar identificação, afirmando que, naquela circunstância, não havia obrigação legal de fazê-lo.

Pedro é cidadão americano naturalizado, casado com uma americana e pai de filhos nascidos nos Estados Unidos. Ele leciona Ciência Política no College of Saint Benedict e na Saint John’s University.

Clima de intimidação

A situação só se acalmou parcialmente com a chegada de um supervisor do ICE. Ainda assim, Pedro descreve o cenário como intimidador.

“Foi uma conversa mais calma para eles. Para mim, o supervisor estava encostado na porta do meu carro enquanto outros seis agentes me cercavam”, relatou.

O professor afirma perceber uma diferença clara entre agentes mais experientes e novos recrutas. Segundo ele, questionamentos sobre a legalidade das ações costumam gerar reações agressivas, especialmente quando moradores começam a filmar as operações.

“Eles ficam nervosos quando percebem que estão sendo filmados, porque isso impede práticas que muitas vezes são ilegais”, afirmou.

Plano de emergência familiar

O aumento das operações federais e o temor de processos de desnaturalização levaram Pedro e sua família a adotarem medidas que antes pareciam impensáveis. Ele e a esposa passaram a discutir cenários de emergência, incluindo prisão ou deportação.

Entre as providências estão a criação de uma reserva financeira para viagens inesperadas, a organização rigorosa de documentos e o hábito de portar comprovantes de cidadania o tempo todo — prática que, segundo ele, se espalhou entre outros brasileiros da região.

“Eu nunca imaginei que teria que planejar o que fazer caso fosse preso ou deportado”, desabafou.

Para Pedro, o receio é agravado pelo fato de ser uma figura visível em eventos de resistência e monitoramento. Ele observa que esse sentimento de insegurança é generalizado, afetando desde brasileiros com green card até crianças da comunidade somali, que mesmo americanas natas, hoje correm para casa ao avistar veículos suspeitos nos pontos de ônibus.

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