Novo olhar sobre 15 de Novembro: entre promessas republicanas e contradições históricas
A Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, é frequentemente lembrada como um marco de renovação política e ruptura com os supostos excessos da monarquia. No entanto, documentos e análises históricas mostram que o novo regime nasceu em meio a contradições e interesses particulares que destoavam do discurso oficial.
O movimento republicano, impulsionado por setores militares e civis, foi deflagrado sem grande participação popular e motivado, em parte, por boatos e tensões políticas dirigidas ao então presidente do Conselho de Ministros, Visconde de Ouro Preto. Logo após a instalação do governo provisório, decisões iniciais dos novos líderes passaram a gerar questionamentos.
Uma das primeiras medidas do regime republicano foi o reajuste salarial para o presidente Marechal Deodoro da Fonseca e seus ministros. Os valores superavam em cerca de 50% a dotação anual destinada ao imperador Dom Pedro II — que não recebia aumentos havia décadas e mantinha um estilo de vida marcado pela simplicidade. Ao longo de seu reinado, Pedro II destinou parte significativa de seus recursos pessoais a iniciativas educacionais, científicas e culturais, além de apoiar jovens estudantes brasileiros.
O contraste entre a retórica republicana e a prática do novo governo chamou a atenção de contemporâneos da época e de historiadores posteriores. Enquanto o regime recém-instaurado acusava a monarquia de representar um peso financeiro para o país, aumentava seus próprios vencimentos em um momento político sensível.
Para especialistas, esse episódio simboliza um ponto de partida revelador: a República nascente já apresentava traços que contrariavam o ideal de austeridade e modernidade que pretendia defender. O episódio também alimenta debates sobre o rumo político do país após o fim do Império — especialmente ao comparar o comportamento público de Dom Pedro II com o dos primeiros governantes republicanos.
Mais de 130 anos depois, a discussão sobre o legado de 15 de novembro segue viva. Entre expectativas frustradas, promessas não cumpridas e desafios institucionais, o episódio continua a inspirar reflexões sobre o tipo de país que se pretendia construir e o que, de fato, se consolidou ao longo do século seguinte.

