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Galípolo defende Selic a 15% e rebate críticas de Haddad sobre alta dos juros

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta quinta-feira (26.jun.2025) que votou pela elevação da taxa básica de juros, a Selic, para 15% ao ano e defendeu que o juro permaneça em patamar restritivo por um “período bastante prolongado” para garantir a convergência da inflação à meta. A declaração ocorre em meio a um ruído público com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que atribuiu a alta dos juros à gestão anterior de Roberto Campos Neto.

Durante a apresentação do novo Relatório de Política Monetária, Galípolo disse estar “absolutamente de acordo” com as recentes decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) e reforçou que as decisões são colegiadas. Segundo ele, cada voto representa a visão individual dos membros do comitê. “Nossas ações falam por si só pelo tamanho da intensidade do ajuste restritivo feito nos últimos meses”, disse.

Na reunião de 18 de junho, o Copom decidiu, de forma unânime, elevar a Selic de 14,75% para 15% ao ano — maior nível em quase 20 anos. Galípolo, que assumiu a presidência do BC com apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), votou a favor do aumento e já foi favorável à alta dos juros em sete ocasiões: três como diretor de Política Monetária e quatro como presidente do BC.

Divergência com Haddad

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou na terça-feira (24.jun) que o aumento atual foi antecipado ainda em dezembro de 2024, sob a presidência de Campos Neto, por meio de um mecanismo conhecido como forward guidance. “Essa alta foi contratada na última reunião da qual participou o Roberto Campos. É como se tivesse estabelecido uma contratação futura da taxa”, disse Haddad.

Questionado sobre a fala do ministro, Galípolo evitou confronto direto. “Não farei nenhuma declaração que me coloque em oposição ao ministro. Converso com ele frequentemente sobre política econômica e até sobre futebol”, respondeu, com bom humor.

Apesar da saída de Campos Neto há quase seis meses, Galípolo destacou que as decisões mais recentes foram tomadas de forma unânime, sem influência do ex-presidente, e reiterou o compromisso com a meta contínua de inflação fixada em 3% ao ano.

Política monetária e projeções

Segundo o Banco Central, o impacto total da política de juros ainda está por vir, já que os efeitos da Selic são defasados. “O juro que a economia sente hoje não é o de 15%, mas o de meses atrás”, explicou Galípolo.

O BC também atualizou suas projeções: o crescimento do PIB em 2025 subiu de 1,9% para 2,1%, enquanto a estimativa de inflação caiu de 5,1% para 4,9%. A autoridade monetária sinalizou uma possível pausa no ciclo de aperto, mas alertou que pode retomar a alta dos juros caso o cenário exija.

Galípolo afirmou que não há um gatilho específico que determine o novo aumento da Selic. “Analisamos um conjunto de indicadores, e não existe reação mecânica a um único número”, disse.

Nova regra para a meta de inflação

O Relatório de Política Monetária, que substitui o antigo Relatório Trimestral de Inflação, detalha as medidas do BC para assegurar o cumprimento da meta de inflação. A nova regra, em vigor desde 2025, estabelece que a meta contínua de 3% deve ser respeitada com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%. Caso a inflação anualizada ultrapasse esse intervalo por seis meses consecutivos, o BC será obrigado a publicar uma carta explicando as causas, as medidas adotadas e o prazo previsto para normalização.

O relatório publicado nesta quinta já aponta que a inflação acumulada em 12 meses deverá ultrapassar o teto da meta em junho, o que exigirá um comunicado formal ao Ministério da Fazenda.

A sinalização do BC é clara: a taxa Selic continuará elevada por tempo indeterminado, e qualquer flexibilização dependerá da consolidação da trajetória de queda da inflação.

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