Críticas a secretário de Segurança do Piauí ampliam debate sobre violência doméstica e responsabilidade do poder público
Declarações do secretário de Segurança Pública do Piauí, Chico Lucas, que associaram a violência doméstica a fatores culturais e até religiosos, provocaram forte reação e ampliaram o debate sobre as responsabilidades do Estado no combate ao feminicídio. Em vídeo que circula nas redes sociais, o posicionamento do secretário é duramente contestado, especialmente no que diz respeito à tentativa de atribuir a culpa da violência contra a mulher a entidades consideradas “abstratas”, como a sociedade, a cultura e a igreja.
Segundo o crítico, responsabilizar instituições que não podem se defender seria uma forma de desviar o foco do problema central: os autores da violência. Para ele, agressões domésticas são cometidas por indivíduos concretos, com nome e rosto, e não estimuladas por instituições religiosas. Pelo contrário, argumenta que igrejas, tanto católicas quanto evangélicas, atuam na promoção da união familiar, do autocontrole emocional e do fortalecimento dos laços familiares.
No discurso, também é rejeitada a ideia de que homens envolvidos com a fé sejam propensos à violência. A avaliação apresentada é a de que agressores costumam ser pessoas emocionalmente instáveis, com vínculos familiares frágeis — justamente características combatidas por lideranças religiosas em seu trabalho pastoral.
As críticas avançam ainda para a atuação prática da Secretaria de Segurança no enfrentamento ao feminicídio. Medidas simbólicas adotadas no início da gestão, como viaturas temáticas e a instalação de um banco em espaço público como alerta contra a violência, são classificadas como ineficazes e sem impacto real na mudança de comportamento da sociedade.
Outro ponto sensível levantado é a postura do alto escalão do governo estadual diante de denúncias envolvendo autoridades ou pessoas próximas ao poder. É citado o caso da nomeação de um integrante do gabinete militar que teria sido acusado de agredir a própria esposa, sem que houvesse, segundo o crítico, uma resposta firme do governo. Para ele, a ausência de posicionamento claro transmite a mensagem de que a violência pode ser relativizada quando envolve aliados políticos.
O discurso também menciona episódios nacionais, envolvendo figuras públicas e lideranças políticas, para sustentar a tese de que a impunidade e o silêncio institucional contribuem para a perpetuação da violência contra a mulher. A avaliação é de que, quando agressores mantêm status, cargos ou influência, o recado à sociedade é de tolerância.
Ao final, o argumento central é que o combate efetivo à violência doméstica não passa por atacar a fé, nem por ações simbólicas, mas por um posicionamento firme do Estado. Isso incluiria impedir que pessoas acusadas de agressão ocupem cargos de poder ou sejam tratadas como exemplos públicos, além de reforçar a responsabilização individual e a coerência moral das autoridades.

