A Disputa pelas Terras Raras: Brasil no Centro da Mira de EUA e China
As terras raras, um grupo de 17 minerais estratégicos, tornaram-se o novo campo de batalha na disputa por recursos globais, com os Estados Unidos e a China no centro. Enquanto a China domina a produção mundial, os EUA correm para garantir seu próprio fornecimento, e é aí que o Brasil entra em cena.
Recentemente, os EUA firmaram um acordo com a Ucrânia e autorizaram a mineração em alto-mar para buscar esses minerais, essenciais para tecnologias como veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de defesa. No entanto, o Brasil se destaca como uma opção mais estável e com a segunda maior reserva mundial desses elementos. “Ucrânia e oceano profundo ainda são promessas. O Brasil é o que já está de pé”, afirma Rafael Marchi, da Alvarez & Marsal.
Apesar do vasto potencial, o Brasil produziu menos de 0,01% da oferta global de terras raras no ano passado (20 toneladas), enquanto a China forneceu 270 mil toneladas. O desafio para o Brasil reside na atração de investimentos para projetos de mineração, que são de alto risco e exigem cerca de uma década para começar a gerar lucro.
O Que São as Terras Raras?
Embora o nome sugira escassez, esses 17 elementos químicos não são tão raros na crosta terrestre. A dificuldade está em encontrá-los em concentrações viáveis e, principalmente, em separá-los eficientemente. A China detém quase 70% da produção global e, crucialmente, 100% da tecnologia de refino das terras raras pesadas (como disprósio e térbio), que são vitais para ímãs de alto desempenho em motores e armamentos. Isso significa que, mesmo produzindo, o Brasil e outros países ainda dependem da China para o processamento final.
A China, inclusive, já começou a usar esse domínio como ferramenta de retaliação comercial, impondo restrições à exportação de sete metais de terras raras pesadas refinadas em abril, afetando diversas indústrias globais.
O Potencial Brasileiro e os Desafios
Com cerca de 25 milhões de toneladas em reservas, o Brasil tem em operação a Mineração Serra Verde, em Goiás, a única fora da Ásia com produção comercial relevante. Contudo, até mesmo a produção da Serra Verde é direcionada à China, evidenciando a falta de infraestrutura de agregação de valor no Ocidente.
Empresas estrangeiras como Aclara, Meteoric Resources e Brazilian Rare Earths (BRE) estão investindo em dezenas de projetos no Brasil. A Aclara, por exemplo, prevê iniciar operações em 2028 com foco em terras raras pesadas, buscando um sócio estratégico para viabilizar a verticalização da cadeia produtiva no país.
Os desafios para o Brasil são significativos: licenciamento ambiental demorado, ausência de um mercado consumidor interno robusto e a escassez de capital de risco em um cenário de juros altos.
No cenário global, as jazidas brasileiras são vistas como ativos estratégicos. Há uma disputa silenciosa por investimentos, com empresas brasileiras evitando acordos com a China para atrair capital dos EUA e seus aliados. Relatórios do Parlamento Europeu apontam a América Latina como um novo campo de batalha por minerais críticos, ressaltando a mistura de geologia, diplomacia e finanças que definirá o futuro desses projetos por décadas.

