Fundos de investimento perdem R$ 157,5 bilhões após reeleição de Lula, aponta levantamento
A indústria brasileira de fundos de investimento perdeu R$ 157,5 bilhões em patrimônio após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O recuo, equivalente a 1,44% do patrimônio total, foi provocado pela desvalorização dos ativos financeiros no período analisado, com impacto mais intenso sobre fundos de ações e multimercados.
As perdas ocorreram em um mercado no qual parte significativa dos investidores apostava na valorização dos ativos brasileiros após uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL). A mudança no cenário eleitoral provocou uma reavaliação das expectativas e desencadeou fortes quedas em diferentes carteiras de investimento.
Entre os fundos mais afetados, sete registraram desvalorizações superiores a 40% em um único pregão, segundo levantamento que considerou carteiras de ações e multimercados com mais de mil cotistas. Na média de 682 fundos analisados, a queda foi de 6,90%. Outros 202 conseguiram registrar ganhos ou manter estabilidade.
A queda ocorreu em um momento de dificuldades para os gestores de fundos de ações e multimercados, que enfrentam concorrência com aplicações de renda fixa em razão da taxa básica de juros, então em 13,75% ao ano. Em setembro, o setor registrou saída líquida de R$ 29,8 bilhões. Apesar disso, o saldo de captação acumulado em 2026 permanecia positivo em R$ 251,7 bilhões.
Gestoras registram perdas expressivas
Entre os casos de maior impacto está a Mantaro. Um de seus fundos de ações, com patrimônio de R$ 373,2 milhões, perdeu 32,24% em 26 de outubro. A gestora mantinha posições relevantes em empresas do setor financeiro, como BTG Pactual e B3, apostando na valorização desses ativos em caso de mudança no governo federal.
O gestor Paulo Abreu afirmou que a empresa não utilizava alavancagem e que algumas posições foram reduzidas após o resultado eleitoral. Ele também reconheceu que a gestora não havia contratado proteção contra uma queda tão acentuada dos ativos.
A Verde Asset Management, comandada por Luis Stuhlberger, também sofreu impactos. A empresa perdeu aproximadamente R$ 2,6 bilhões em patrimônio durante outubro, encerrando o período com R$ 12,4 bilhões. Um de seus fundos de ações caiu 19,85% no pregão de segunda-feira (26), enquanto o tradicional fundo multimercado Verde registrou recuo de 4,66%.
Na AZ Quest, um dos fundos de ações apresentou desvalorização de 35,42% no mesmo dia. A gestora administra aproximadamente R$ 33,14 bilhões.
A Mar Capital também comunicou aos investidores que estava revendo sua estrutura de custos após resultados negativos. A empresa mencionou a possibilidade de ajustes na equipe, mas seu presidente-executivo, Bruno Coutinho, afirmou que não houve demissões.
Corretoras também são atingidas
As perdas não ficaram restritas aos fundos de investimento. Empresas do setor financeiro também registraram fortes quedas na Bolsa de Valores.
No pregão de 26 de outubro, as ações da XP recuaram 48,36%, enquanto os papéis do BTG Pactual caíram 24,83%. Os dois desempenhos ficaram abaixo do resultado do Ibovespa, que encerrou o dia com desvalorização de 13,88%.
A reação do mercado foi influenciada pela expectativa de parte dos investidores de que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro provocaria mudanças na política econômica. Com a reeleição de Lula, gestores precisaram rever posições que estavam montadas para um cenário diferente.
Perspectivas para o mercado
Especialistas apontam que a recuperação dos fundos dependerá de fatores como o comportamento dos juros de longo prazo, as expectativas fiscais e as sinalizações da equipe econômica do próximo governo.
A professora da Fundação Getulio Vargas (FGV) e ex-gestora de fundos Myrian Lund avalia que juros reais elevados dificultam o desempenho dos fundos multimercados em comparação com aplicações mais conservadoras. Nesse cenário, a renda fixa tende a continuar atraindo investidores.
A definição da equipe econômica e das metas para as contas públicas também será acompanhada pelo mercado financeiro, especialmente diante das incertezas sobre a condução fiscal do governo Lula.

