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De uma aluna a milhares de histórias: Colégio das Irmãs chega aos 120 anos em Teresina

Mais de um século de mudanças na educação, gerações de estudantes e lembranças que atravessaram famílias inteiras fazem parte da trajetória do Colégio Sagrado Coração de Jesus, conhecido em Teresina como Colégio das Irmãs. Em 2026, a instituição completa 120 anos de funcionamento, consolidando uma história ligada à formação educacional e religiosa no Piauí, especialmente entre as mulheres.

A origem da escola remonta a agosto de 1906, quando religiosas da congregação Irmãs dos Pobres de Santa Catarina de Sena chegaram à capital piauiense. O grupo havia partido de Belém, no Pará, onde a congregação já atuava no Brasil desde 1903. A iniciativa ocorreu após um convite do então bispo de Teresina, Dom Joaquim Antônio de Almeida, para que as irmãs se dedicassem ao ensino de crianças e adolescentes.

A adaptação não foi simples. Vindas da Itália, as religiosas encontraram dificuldades com o clima, a estrutura disponível e os hábitos da população local. As primeiras atividades escolares começaram em outubro, em uma residência modesta na antiga Rua Bela. A irmã Amparo Machado, diretora-presidente da Rede Saviniana, relata que as condições eram tão diferentes que as religiosas precisaram aprender até mesmo a dormir em redes.

A escola iniciou as atividades com apenas uma aluna. A procura cresceu rapidamente, e o espaço inicial deixou de comportar a rotina da instituição. Depois de funcionar na Chácara Tabajaras, área onde hoje está o Convento São Benedito, o colégio chegou, em 1907, à região da atual Avenida Frei Serafim.

Ensino abriu novas possibilidades para meninas

Quando a instituição começou a funcionar, o acesso das mulheres à educação formal ainda era limitado. Em muitas famílias, o aprendizado feminino ocorria em casa e se restringia à leitura, à escrita, a cálculos básicos e às tarefas domésticas.

A proposta do Colégio das Irmãs ampliou esse horizonte. Além das disciplinas tradicionais, as alunas tinham contato com idiomas, música e pintura. O francês e o italiano integravam o ensino desde os primeiros anos, em uma época na qual o domínio de outras línguas era uma oportunidade pouco acessível para muitas meninas.

A instituição também recebeu estudantes cujas famílias não podiam arcar com as mensalidades. Segundo a irmã Amparo, essa preocupação social fez parte da atuação das religiosas desde o início da escola.

Para o arquiteto Carlos Kaiser, ex-aluno do colégio, a instituição ocupa um lugar relevante na história da educação feminina piauiense. Ele destaca ainda o reconhecimento formal do ensino da escola em 1931, por meio do Decreto nº 1.213, que, conforme seu relato, equiparou a formação oferecida à da Escola Normal.

Mudanças acompanharam novas gerações

A passagem do tempo transformou a rotina escolar, os uniformes e as relações dentro da instituição. Uma dessas mudanças ocorreu na década de 1970, quando a calça comprida passou a fazer parte do uniforme das estudantes, durante a gestão da irmã Maria do Socorro Franco de Sá.

A médica Araci Castelo Branco conhece essa trajetória por diferentes perspectivas: foi aluna e, mais tarde, professora da escola. Ela lembra que sua turma foi a última formada exclusivamente por meninas e conta que começou a trabalhar no colégio antes de concluir a graduação em Medicina.

A rotina de professora precisou ser interrompida quando ficou difícil conciliar as aulas com o curso universitário. Mesmo depois de deixar a escola, Araci manteve a ligação afetiva com o lugar onde estudou e iniciou sua vida profissional.

As lembranças incluem também iniciativas sociais realizadas pelas religiosas, com atividades voltadas a meninas em situação de rua e a pessoas idosas. Para a médica, a experiência escolar teve influência para além da formação acadêmica, contribuindo para valores que ela considera importantes em sua vida e na educação de seus familiares.

Capela se tornou cenário de histórias pessoais

Dentro do colégio, a capela guarda memórias que ultrapassam as atividades religiosas. A construção começou em 1919 e foi finalizada em 1925. Desde então, o espaço passou a fazer parte da rotina da comunidade escolar, recebendo celebrações e momentos de oração.

Entre as histórias ligadas ao local está a de Ana Caroline e Márcio. Os dois estudavam no colégio quando se aproximaram durante um ensaio para a crisma. A ideia de se casar na capela surgiu ainda no começo do namoro, segundo o relato de Ana Caroline.

Quase uma década depois, em 2009, o casal voltou ao mesmo espaço para realizar a cerimônia. A ligação com a instituição permanece presente na vida familiar: os dois afirmam que os valores religiosos conhecidos durante a época escolar também influenciam a criação dos filhos.

A capela continua sendo procurada por estudantes que fazem orações antes das aulas e por famílias que mantêm uma relação de proximidade com a escola.

Ao completar 120 anos, o Colégio das Irmãs reúne histórias que vão da luta inicial para manter uma pequena escola em Teresina à formação de sucessivas gerações de piauienses. Sua trajetória acompanha mudanças no acesso à educação, nos costumes e na vida social da capital, preservando a ligação entre ensino, convivência comunitária e tradição religiosa.

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