Ar mais limpo pode acelerar temporariamente o aquecimento global, apontam estudos
A redução da poluição atmosférica, apesar de trazer benefícios importantes para a saúde e para o meio ambiente, pode estar contribuindo para uma aceleração temporária do aquecimento global. Estudos recentes indicam que a diminuição de partículas de enxofre na atmosfera retirou parte de um efeito de resfriamento que, durante décadas, ajudou a limitar o aumento das temperaturas.
Isso, no entanto, não significa que o ar mais limpo seja a causa principal das mudanças climáticas. O principal responsável pelo aquecimento do planeta continua sendo o aumento da concentração de gases de efeito estufa, especialmente o dióxido de carbono (CO₂), liberado principalmente pela queima de combustíveis fósseis.
A relação entre poluição e temperatura está ligada aos chamados aerossóis de sulfato. Quando carvão e petróleo são queimados, há emissão de dióxido de enxofre, que reage na atmosfera e dá origem a pequenas partículas capazes de refletir parte da radiação solar de volta para o espaço.
Com menos energia do Sol chegando à superfície, o aquecimento é parcialmente reduzido.
Menos poluição, menos efeito de resfriamento
Nas últimas décadas, países da Europa, América do Norte e, posteriormente, a China adotaram medidas para diminuir a poluição por enxofre. As iniciativas foram importantes para combater problemas como a chuva ácida e reduzir danos à saúde provocados pela poluição do ar.
O setor de transporte marítimo também passou por mudanças que reduziram significativamente as emissões de enxofre.
O resultado foi uma atmosfera mais limpa, mas também a diminuição de um mecanismo que ajudava a mascarar parte do aquecimento provocado pelos gases de efeito estufa.
Os aerossóis permanecem na atmosfera por apenas dias ou semanas. Já o dióxido de carbono pode permanecer no sistema climático por séculos. Por isso, quando a emissão de partículas de sulfato cai, o efeito de resfriamento desaparece rapidamente, enquanto o CO₂ continua acumulado na atmosfera.
Uma pesquisa estima que a redução da poluição por enxofre tenha contribuído para elevar em aproximadamente meio grau Celsius o aquecimento durante o verão em algumas áreas do centro-oeste da Europa desde 1980.
Nuvens também entram na equação
Os aerossóis não influenciam o clima apenas pela reflexão direta da luz solar. Eles também interferem na formação das nuvens.
As pequenas partículas funcionam como núcleos em torno dos quais o vapor de água pode se condensar. Com isso, determinadas nuvens podem se tornar mais brilhantes ou permanecer por mais tempo na atmosfera, refletindo uma quantidade maior de radiação solar.
Um exemplo desse fenômeno pode ser observado em áreas marítimas, onde a poluição emitida por navios pode produzir rastros de nuvens mais brilhantes, detectáveis por satélites.
Porém, os cientistas investigam outro fenômeno que pode ter papel importante: o próprio aquecimento do planeta estaria alterando a quantidade e o comportamento das nuvens.
Em algumas regiões dos oceanos, o aumento da temperatura pode reduzir a cobertura de nuvens baixas. Como essas nuvens refletem a luz solar e o oceano absorve grande parte dessa energia, uma menor cobertura pode significar mais calor entrando no sistema climático.
Esse mecanismo pode criar um ciclo de retroalimentação: o planeta aquece, determinadas nuvens diminuem, mais radiação solar é absorvida e o aquecimento aumenta.
Terra acumula cada vez mais energia
Para entender o que está acontecendo, pesquisadores também analisam o chamado desequilíbrio energético da Terra, que representa a diferença entre a energia que o planeta recebe do Sol e aquela que consegue devolver ao espaço.
Quando a Terra absorve mais energia do que libera, o excedente fica armazenado principalmente nos oceanos e provoca aumento da temperatura global.
Pesquisadores afirmam que esse desequilíbrio aumentou de forma significativa nas últimas décadas. O aquecimento dos oceanos é um dos principais sinais desse processo.
A Organização Meteorológica Mundial também aponta que a velocidade de aquecimento dos oceanos aumentou nas últimas décadas, reforçando a preocupação dos cientistas com a evolução do sistema climático.
Clima pode ser mais sensível do que se imaginava
Uma das questões que mais preocupam os pesquisadores atualmente é saber se o clima da Terra responde aos gases de efeito estufa de maneira mais intensa do que alguns modelos utilizados anteriormente indicavam.
Pesquisadores do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH) analisaram a evolução das temperaturas globais e tentaram separar o aquecimento provocado pela atividade humana das variações naturais, como o fenômeno El Niño.
A análise aponta que a velocidade do aquecimento pode ter aumentado nos últimos anos.
Outros estudos chegaram a conclusões semelhantes e indicam que a redução dos aerossóis pode ser uma das peças desse quebra-cabeça. Entretanto, os pesquisadores ressaltam que a queda da poluição não explica sozinha a aceleração recente das temperaturas.
Os gases de efeito estufa continuam tendo um impacto muito maior.
Possibilidade de aquecimento maior preocupa cientistas
Uma das hipóteses mais preocupantes levantadas pelas pesquisas é que o planeta possa ser mais sensível às emissões de gases de efeito estufa do que algumas estimativas anteriores indicavam.
Uma análise conduzida por pesquisadores europeus sugere que a mesma quantidade de emissões poderia produzir aproximadamente 25% mais aquecimento do que algumas projeções anteriores apontavam.
Se essa hipótese for confirmada por novos estudos, cenários futuros de temperatura poderão precisar ser revisados.
Estimativas atuais indicam que, com as políticas climáticas existentes, o planeta pode chegar ao final do século com aproximadamente 2,8 °C de aquecimento em relação ao período pré-industrial. Caso as novas evidências sobre a sensibilidade climática sejam confirmadas, esse aumento poderia se aproximar de 3,5 °C.
Os próprios pesquisadores, porém, recomendam cautela. Os registros de observação por satélite ainda são relativamente recentes, enquanto as variações naturais do clima podem influenciar significativamente os resultados de períodos curtos.
Ar limpo não é o vilão
Apesar da relação entre a redução dos aerossóis e o aumento das temperaturas, especialistas reforçam que combater a poluição continua sendo fundamental.
O ar mais limpo não provoca o aquecimento global. O que acontece é que a redução dos aerossóis elimina parte do efeito de resfriamento que anteriormente escondia uma parcela do aquecimento causado pelos gases de efeito estufa.
A principal causa da mudança climática continua sendo a emissão de gases como o dióxido de carbono.
Se o clima realmente for mais sensível do que algumas projeções apontam, os impactos poderão ser ainda maiores, com aumento do risco de ondas de calor intensas, secas, enchentes e incêndios florestais.
A conclusão dos pesquisadores é que a redução da poluição atmosférica é positiva para a saúde e para o meio ambiente, mas não substitui a necessidade de diminuir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa. Quanto mais CO₂ for lançado na atmosfera, maior será o aquecimento do planeta.

